

Maio foi, como habitualmente, o nosso mês mais comprido da temporada. Começámo-lo na companhia de Nuno Queirós – entre muitas outras coisas, pároco de Salreu – que, para além de expor as diferentes vias pelas quais se consegue a atribuição do estatuto de santo, partilhou com uma numerosa plateia duas obras de Francis Poulenc (1899 – 1963): Quatre petites prières de Saint François d’Assise [1948] e Litanies à la Vierge noire [1936].
Apesar da seriedade da música, a sessão foi bastante animada. A contraproposta da Arte no Tempo (AnT) foi, em honra do convidado da sessão “Que música ouvimos?”, também ele organista, a obra City Walk [2020], de João Pedro Oliveira (1959), numa “ante-estreia” do disco gravado por Nuno Aroso para a AnT, que daí a dias seria lançado.



Cinco dias depois, inicíamos com sala cheia a 5ª edição dos Reencontros de Música Contemporânea (RMC). Os tão aplaudidos artistas foram Afonso Primo, Lourenço Oliveira e Pedro Leitão – Taleae – que interpretaram um programa de compositores portugueses em que, além de obras previamente existentes de Ricardo Ribeiro (1971), Inés Badalo (1989) e Pedro Berardinelli (1985), incluiram a estreia absoluta de uma obra que os próprios encomendaram a Luís Antunes Pena (1973).




Esse primeiro concerto [c1] foi um belíssimo indicador da vitalidade e do interesse de uma nova geração de músicos que procura ir além de uma técnica perfeita, criando dramaturgias sonoras simultaneamente poéticas e impregnadas de alguma surpresa – o segredo dos mestres.
Longa vida ao trio Taleae!
Continuando pela mundo da percussão, o segundo dia dos RMC trouxe a público o primeiro álbum discográfico da AnT enquanto editora independente (AnT): João Pedro Oliveira – em directo da Califórnia, por video-conferência – e Nuno Aroso partilharam um pouco da história da sua colaboração, antes de Aroso e o Clamat – colectivo variável interpretarem uma das obras gravadas no álbum City Walk: Nuno Aroso plays João Pedro Oliveira (AnTaural001): In the House of the Glass King [2021].



O sábado foi mais preenchido, com o início do estágio Nova Música para Novos Músicos (NMpNM) – este ano dirigido por Carlos Lopes, com a habitual assistência informática musical de Nádia Carvalho – o recital de Gonçalo Lélis [c3] ao final da tarde e a estreia do Re:Flexus Trio em Aveiro, à noite [c4]. O que Gonçalo Lélis nos proporcionou na Igreja das Carmelitas foi algo sublime. Não foi o facto de tocar Bach num ambiente de música contemporânea que tornou o momento especial, mas foi sobretudo com o Bach que nos ofereceu que melhor atingiu o público. O que faz um músico como Gonçalo Lélis numa orquestra, “fechado em Portugal”, é uma questão que dificilmente se compreende.




Além do trio que Schumann compôs para clarinete, viola e piano e da homenagem que Kurtág prestou àquele compositor alemão, escrevendo para a mesma formação, o Re:Flexus Trio trouxe-nos a estreia absoluta do muito aplaudido trio Was it the Lyrical Nightingale [2025], que Nádia Carvalho (1993) criou por encomenda da AnT.



No Domingo, 18 de Maio, continuámos ao ritmo de 2 concertos por dia, começando com uma informal audição comentada do ars ad hoc [c5], em que foram interpretados trechos e obras completas de Debussy (especialmente bem tocado), Stravinsky, Berardinelli, Clara Iannotta (1983) e José Manuel López López (1956). À tarde, os fantásticos participantes do estágio NMpNM estrearam a obra sem título que João Moreira (2004) escreveu, por encomenda da AnT, e interpretaram ainda duplo [2019], de Tiago Cutileiro [c6]. Importa aqui agradecer a colaboração dos professores que encaminharam estes novos músicos até nós. Vários deles hão-de regressar no próximo ano, tanto para novas peças de conjunto como para a estreia de peças para instrumento solo e electrónica, porque, quando o trabalho é surpreendentemente positivo, tendencialmente origina novas colaborações. Foi também esse o caso de um Tubo de Ensaio realizado em 2021, com o incrível agrupamento hand werk, de Colónia, que regressou ao Teatro Aveirense, desta vez, para um concerto nos RMC [c7].




Mais uma vez, pudemos testemunhar a singularidade e interesse do trabalho daquele agrupamento que, tal como em 2021, interpretou uma nova obra de Inés Badalo. Num alinhamento perfeito, deram-nos a escutar uma combinação de obras instrumentais [de Badalo e de Saad Haddad (1992)], outras mais performativas [de Francesco Filidei (1973), Michael Maierhof (1956) e Sarah Nemtsov (1980)] e, ainda, uma combinação dos dois, como foi o caso de 2.5 nightmares [2015], de Natacha Diels (1981), para violoncelo e 2 assistentes, extraordinariamente bem executada.





A sexta-feira começou fora do Teatro Aveirense. A pretexto de trabalhar com o ars ad hoc (que, com ele, aperfeiçoou as técnicas do waldteufel), o compositor Oscar Bianchi (1975) veio a Aveiro participar nos RMC, conduzindo um breve seminário sobre a sua música nas instalações do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro.


A noite seria preenchida com uma combinação de clássicos do século XX e de obras de compositores portugueses vivos [c8]. Com a preciosa assistência de Nádia Carvalho, o saxofonista Luís Salomé (grande reincidente das bienais da AnT) ofereceu-nos um recital impressionante com música dos dois gigantes compositores cujo centenário se celebra este ano – Luciano Berio (1925 – 2003) e Pierre Boulez (1925 – 2016) – a que juntou a estreia de Je te donne ces vers afin que si mon nom [2025], para saxofone soprano e electrónica, que João Moreira escreveu para a ocasião e, ainda, a interpretação de Dé-coll/age [2019], para saxofone soprano, taça tibetana e movimento, da compositora mais tocada nesta edição dos RMC: a luso-espanhola Inés Badalo. Numa prestação irrepreensível, Luís Salomé impressionou sobretudo em Dialogue de l’ombre double [1989], de Boulez, obra de uma dificuldade extrema em que, além de tocar as notas da partitura, conseguiu ainda fazer música ao mais alto nível. Também na obra de Inés Badalo impressionou com uma forte presença, confirmando a sua versatilidade.







O penúltimo dia dos RMC começou com a caminhada aural de Tomás Quintais (1998) que nos convida a relacionar a paisagem sonora da zona histórica da cidade de Aveiro com as nossas memórias deste e de outros lugares. A partir dessa primeira apresentação, Walkscape Encounters with Sound [2025] ficou disponível para escuta/caminhada autónoma a qualquer momento.






A noite trouxe-nos um dos momentos mais aguardados desta edição dos RMC: a estreia da versão para piano e orquestra clássica do concerto Zafre [2025], que Inés Badalo elaborou por encomenda da AnT, para o pianista João Casimiro Almeida, com a Orquestra das Beiras e o maestro Carlos Lopes, também ele em estreia na direcção de orquestra. [c9]



Ainda no campo das efemérides, Carlos Lopes dirigiu Le Tombeau de Couperin (1917), de Maurice Ravel (1875-1937) e, no domingo de manhã (25 de Maio), o Art’Ventus Quintet interpretou Ricorrenze [1985-7], de Luciano Berio (1925-2003) [c10]. Foi um trabalho exemplar a partir de uma partitura não demasiado fácil de escutar, complementado pela interpretação de obras de Marta Domingues (2000) e de Luís Carvalho (1974) e pela estreia de uma obra que Michele Allegro (1992) escreveu para a ocasião, na sequência de uma chamada aberta a compositores no Verão passado.




A bienal fechou com o grupo “da casa”. O ars ad hoc fez a sua melhor interpretação do Quarteto de cordas nº 1 [2023], que Mariana Vieira (1997) criou por encomenda da AnT, antes de apresentar a sua primeira leitura de Anamorphoses V [1997], de Isabel Soveral (1961) – que em Outubro próximo voltará a apresentar publicamente. Com o Quarteto de cordas nº 2 ‘Pathos of Distance’ [2017], de Oscar Bianchi, concluímos a 5ª edição dos Reencontros de Música Contemporânea, esperando voltar a reunir, em 2027, as condições necessárias para mais uma boa celebração da música dos nossos dias, no Teatro Aveirense.


Encerrámos o mês com o lançamento do episódio 41 do podcast Vortex Temporum, no qual, dias antes de vir a Lisboa para a estreia portuguesa da sua obra A Self-portrait (with Anatsui in the background) [2022], Silvia Borzelli (Roma, 1978) nos fala sobre música, erosão, resistência e o que quer que seja que precede a própria música.
[02.06.2025]

