Começámos a temporada bem no início de Setembro, com a primeira residência de criação do espectáculo Uma Linha de Luz na Água, no Auditório de Serralves, com uns pozinhos ainda no final de Agosto.
No seguimento dos espectáculos A Fog Machine e outros poemas para o teu regresso e radiografia, conclui-se agora a trilogia que juntou João Reis, Nuno Aroso e Pedro Fonseca, numa viagem que começou ainda em 2020 (o primeiro espectáculo estreou em Outubro de 2021). O quarto elemento que integra a equipa nuclear do projecto, já desde radiografia, é Tomás Quintais, responsável pela produção sonora.



Com texto inédito de Andreia C. Faria (derivado do qual publicou recentemente outro texto integrado no livro Aposto Tudo numa Elegância Ferida – Companhia das Letras) e música inédita de Chiyoko Szlavnics, Uma Linha de Luz na Água conta com o apoio do programa Criatório da Ágora – Cultura e Desporto do Porto, E.M., S.A, para além da Direção-Geral das Artes. Antes de se apresentar em Serralves, a 1 de Novembro, o espectáculo estreia no Teatro Aveirense e na Casa das Artes de Famalicão, passando, ainda em Novembro, pelo Cine-Teatro João Verde, em Monção.
O trabalho de criação continuou já nestes primeiros dias de Outubro, na CRL – Central Eléctrica, com a presença da compositora.

Este ano voltámos a ter uma edição especial do Festival Itinerante de Percussão (FIP), na Casa da Música. O concerto realizou-se a 5 de Setembro, com um programa composto por 4 septetos bem distintos, criados por encomenda da Arte no Tempo para diferentes edições regulares do FIP. Mário Teixeira dirigiu 7 percussionistas que participaram no projecto em representação de cada uma das instituições de ensino superior portuguesas em que é ministrado curso de percussão.
A primeira obra interpretada foi Out of Sync [2024/26], de Luís Antunes Pena (1973) – uma versão revista da obra estreada sob direcção de Bruno Costa, no 5º FIP, em Braga (Dezembro de 2024), para sete percussionistas em movimento e instrumentos de madeira. Aos músicos não é pedido apenas que toquem, mas também que se movam entre duas posições distintas e que falem.








A mais antiga peça em programa, Configurations du poète [2022], de Isabel Soveral (1961), é uma obra em que a marimba ocupa um papel de destaque. Foi estreada no 4º FIP, em Castelo Branco, sob a direcção de Marco Fernandes.


Composta também para o 5º FIP e estreada sob direcção do próprio Mário Teixeira, a segunda peça do concerto foi Spielen [2024], de João Moreira (2004). Tal como o título deixa adivinhar, parte dos instrumentos usados na peça são brinquedos. Além de instrumentos de metal designados, o compositor pede aos intérpretes que tenham um papel activo na escolha dos instrumentos/brinquedos.





O concerto encerrou com uma obra estreada na edição de 2025 do FIP, sob a direcção de Nuno Aroso: Dissolves me into geometrics [2025] é uma obra singular de António Pinho Vargas (1951), que se restringe praticamente ao uso de peles (excepção para uma bigorna e um tam-tam) que evita alturas definidas.




Já na segunda quinzena, a percussão misturou-se com flauta, clarinete e voz para dar forma ao projecto que chegará a público em Dezembro: a poesia das pequenas coisas estreia mesmo antes do Natal, no Teatro Aveirense, com desenho de luz e espaço cénico de Pedro Fonseca, numa co-criação com Ricardo Carvalho, Horácio Ferreira, Ana Caseiro, Afonso Primo e Diana Ferreira, que conta ainda com video de Nuno Madeira.

Depois de uma longa pausa, retomámos o podcast Vortex Temporum com um episódio que, apesar de ter estado aqui suspenso desde Abril, nos chega do futuro. Com a sua obra Schmutz em pano de fundo, Ying Wang (1976) leva-nos a um mundo onde a contaminação já não é uma anomalia, mas sim uma realidade omnipresente. À medida que o ar, a água e o próprio pensamento se deterioram, o som torna-se território de controlo e filtragem. A audição é reduzida a uma experiência regulamentada, moldada por ruído branco artificial, por uma calma imposta e pelo apagamento gradual de tudo o que possa perturbá-la.
Num cenário distópico de 2076, somos conduzidos numa viagem inquietante a um tempo em que já nem o som é livre.
[06.10.2026]