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Outubro 2025

No primeiro sábado de Outubro, retomámos as sessões de escuta partilhada “Que música ouvimos?“. Depois de José António Christo (director do Museu de Aveiro / Santa Joana) deliciar os presentes com a sua história sobre S. Francisco de Xavier, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco melhor José Pina e o seu percurso profissional, alguns dos muitos projectos que tem criado e parte do trabalho que tem desenvolvido à frente do Teatro Aveirense. Ouvimos Vivaldi e Beat Furrer e recordámos alguns momentos especiais da Arte no Tempo, também no Teatro Aveirense, desde 2017.

No fim-de-semana seguinte, o aguardado lançamento do primeiro álbum discográfico do ars ad hoc coincidiu com o primeiro concerto do grupo na temporada de 2025/26, no Auditório de Serralves. Na sua formação de quarteto de cordas, o grupo de música de câmara da Arte no Tempo deu a escutar música de Salvatore Sciarrino (1947), Isabel Soveral (1961), György Kurtág (1926) e João Moreira (2004). Gonçalo Lélis deu início ao concerto interpretando Anamorphoses IV [1997], obra para violoncelo solo cujo início encontramos decalcado na quarteto de cordas da mesma compositora, Anamorphoses V [1997], que o grupo interpretou logo depois do trio Codex Purpureus [1983], de Sciarrino. Do quase centenário György Kurtág, o ars ad hoc interpretou pela primeira vez o belíssimo quarteto Officium breve, in memoriam Andreae Szervánszky, Op. 28 [1989]. A pretexto do lançamento do álbum discográfico do ars ad hoc, que Diana Ferreira apresentou em breves palavras, o grupo concluiu o concerto com a interpretação do trio Atropos [2022], de João Moreira, que havia estreado naquele mesmo auditório, dois anos e meio antes.

I. Soveral | Anamorphoses IV [1997]
📷 André Delhaye / Fund. Serralves
Sciarrino | Codex Purpureus [1983]
📷 André Delhaye / Fund. Serralves
I. Soveral | Anamorphoses V [1997]
📷 André Delhaye / Fund. Serralves
György Kurtág | Officium breve Op. 28 [1989]
📷 André Delhaye / Fundação de Serralves
João Moreira | Atropos, para trio de cordas [2022]
📷 André Delhaye / Fundação de Serralves

Quanto ao álbum discográfico com que o grupo se dá a conhecer ao mundo através de um registo comercial, trata-se de uma colectânea que reúne obras de compositores portugueses, que estreou, e música de três compositores maiores, entre os quais o português Emmanuel Nunes (1941-2012), mas também Gérard Grisey (1946-1998) e Beat Furrer (1954) – este último sendo o primeiro compositor com que o grupo trabalhou, em 2019, uma experiência que viria a merecer-lhe a recomendação do mesmo para uma digressão de 5 concertos nos Açores, no Outono daquele ano. Das obras que estreou, o ars ad hoc escolheu para este disco dois quintetos, de Pedro Berardinelli (1985) e de Carlos Lopes (1995), e duas obras para cordas, um quarteto de Mariana Vieira (1997) e um trio de João Moreira (2004) – as primeiras três resultantes de encomenda da Arte no Tempo e a última resultado de uma chamada para compositores lançada pela mesma organização, em 2022. O lançamento do disco não poderia decorrer senão em Serralves, em cujo auditório as gravações tiveram lugar.

Este álbum que o ars ad hoc gravou para a neper music, com um apoio que a própria obteve da Direcção-Geral das Artes, compreende, além dos dois discos compactos, um livro de 40 páginas com informação sobre o grupo, as obras e os autores, bem como uma fotografia exclusiva da autoria de Tomás Quintais (editor da neper music) relativa aos bastidores do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, durante a montagem de uma exposição.

No último sábado do mês, o ars ad hoc concluiu a sua colaboração com o Teatro Narciso Ferreira, ali realizando o último de quatro concertos em colaboração com o Município de Vila Nova de Famalicão e com o apoio do Banco BPI | Fundação “la Caixa” e da Direcção-Geral das Artes. Foi mais uma programa de quarteto de cordas em que, aos quartetos de Isabel Soveral e de György Kurtág apresentados duas semanas antes, em Serralves, o grupo juntou os dois primeiros andamentos do Quarteto em Fá M de Maurice Ravel (1875 – 1937).

No mesmo dia em que divulgámos os nomes dos jovens percussionistas seleccionados para se apresentar a solo no 6º Festival Itinerante de Percussão (FIP), encerrámos o mês com o lançamento do episódio 44 do podcast Vortex Temporum, na companhia de Luís Salgueiro (1993). Sucedendo ao episódio de Ludger Brümmer, Luís Salgueiro ofereceu-nos uma episódio longo mas bastante estimulante, movendo-se convictamente entre música e filosofia, reflectindo sobre como o pensamento se torna som e como a linguagem molda o que ouvimos, para além de nos aguçar o apetite com pequeníssimos excertos de música sua.

E os dois jovens solistas que se apresentarão a solo no FIP de 2025, em Lisboa, são, como já aqui anunciámos, Bernardo Cruz (2001) e Paulo Amendoeira (2002), dois alentejanos do mundo que partiram do mesmo ponto, trilharam percursos diferentes e vêm ao FIP partilhar connosco um pouquinho do muito que já fazem.

[31.10.2025]