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Dezembro 2025

Comecemos pelo fim de um ano cheio de nova música. No penúltimo dia de Dezembro, contámos com a colaboração de 24 músicos e três compositores na estreia de três septetos encomendados para o 6º Festival Itinerante de Percussão.

Os 7 professores responsáveis pela música que este ano se fez ouvir nos recitais de solistas (Nuno Aroso, João Dias, Vasco Ramalho, André Dias, Jeffery Davis, Pedro Carneiro e Marco Fernandes), a par dos jovens solistas seleccionados, os reguenguenses Paulo Amendoeira e Bernardo Cruz, entretiveram-nos nas três primeiras noites do festival, na Escola Superior de Música de Lisboa, enquanto os jovens estudantes que integraram os septetos se preparavam para estrear as obras de Bernardo Lima, Nádia Carvalho e António Pinho Vargas.

Composta para instrumentos de madeira, em Mateira Lignorum [2025], de Bernardo Lima (1993), a primeira coisa que se salientou foi um gesto leve, mas claro, nos woodblocks. Uma marimba de cada lado e, no meio, 5 músicos (um deles apoiando uma das marimbas) que pontuam o diálogo entre as duas, por vezes de forma mais presente, outras mais discretos, foi o que João Dias teve à sua frente para trabalhar.

Bernardo Lima (1993)
Nádia Carvalho (1994)

Usando instrumentos metálicos, em Echoes of Alloy: Of Shards and Shimmers [2025], Nádia Carvalho (1993) mantém um tam-tam em quase permanente utilização. Trata-se de uma obra delicada, que vive de texturas, de “som sustentado” com dinâmicas evolutivas, polvilhada com leves ataques, estreada sob a direcção de Pedro Carneiro.

António Pinho Vargas (1951)

A António Pinho Vargas (1951) coube a missão de escrever “uma peça sem notas”, como o próprio frisou no palco do Auditório do Museu do Oriente. O resultado, Dissolves me into geometrics [2025], é uma peça que alia densidade a elegância e que, além dos instrumentos de pele, recorre a dois gongues, dois tam-tams e uma bigorna – um jogo constante de dinâmicas evolutivas, por vezes muito articulado, que Nuno Aroso ensaiou e dirigiu e que, em Setembro, será novamente apresentada na Casa da Música, numa segunda edição de FIP especial.

Regressando ao início do mês, no dia 4, o Teatro Aveirense recebeu o incrível Trio Catch, música de câmara na mais pura acepção da expressão. Com um programa que incluiu Daniela Terranova, Christophe Bertrand, Beat Furrer e Helmut Lachenmann, o grupo deixou bem claro, neste Tubo de Ensaio, que, para se fazer música, não basta muito boa técnica. É preciso uma entrega à própria música que passa pelo tempo que se lhe dedica, sem pressa, mas também outras vivências contribuem para interpretações mais aprofundadas. De resto, cada obra pode oferecer mais, em revisitações reflectidas.

Dois dias depois, o encontro foi no Museu de Aveiro / Santa Joana, onde conversámos sobre a música que ouvimos. O convidado foi Manuel Joaquim Rocha, vigário geral da diocese de Aveiro, que nos trouxe o Outono, de Vivaldi. A Arte no Tempo respondeu com um Capriccio de Salvatore Sciarrino, compositor italiano que 25 anos antes havia vindo pela primeira vez a Portugal, a convite das Jornadas Nova Música. José António Christo levou os presentes a revisitar dois quadros dos “pintores de Aveiro”.

O ars ad hoc encerrou o ano com um programa ‘clássicos vs contemporâneos’ que apresentou no belíssimo Teatro Cinema, em Fafe, concluindo um primeiro ano de colaboração com aquele município com uma transcrição para quarteto misto elaborada por Ricardo Carvalho de Ma Mère L’Oye, de Maurice Ravel (1875 – 1937), a estreia nacional de Arquitecturas del limite, José Manuel Sánchez-Verdú, e, sendo Natal, a transcrição de Ricardo Carvalho para quinteto pierrot da Suite O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky.

Também no mês de Dezembro, há a assinalar o destaque que diversos meios de comunicação social deram ao primeiro álbum discográfico do ars ad hoc, com entrevistas e notícias na imprensa escrita e audio-visual.

[07.01.2026]