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Isabel Vaz

Isabel Vaz (Lisboa, 1986) | Amesterdão, desde 2007
violoncelo

Violoncelista da Noord Nederlands Orkest (Holanda) e do Haarlem Piano Trio, colaboradora da NedPho (Amesterdão), Orquestra Gulbenkian e Orquestra Sinfónica Portuguesa. Estudou na Fundação Musical dos Amigos das Crianças (Lisboa), na Escola Superior de Música de Lisboa, na HAMU (Praga), no Conservatório de Amesterdão e na Manhattan School of Music (Nova Iorque), na Hochschule für Musik, Theater und Medien Hannover; foi premiada em concursos em Portugal e no estrangeiro; foi bolseira da Fundação Calouste.

[Arte no Tempo / Orquestra XXI] Ainda enquanto estudante da Escola Superior de Música de Lisboa, estiveste em Praga, no âmbito do programa Erasmus. Nessa altura já sabias que passarias os anos seguintes no estrangeiro?
Enquanto criança e jovem nunca tive a oportunidade de viajar e conhecer outros ambientes e culturas. O Erasmus que fiz enquanto ainda estudava na ESML realizou o sonho que eu tinha de sair de Portugal e proporcionou-me a oportunidade única de passar uns meses noutro país, para além, claro, da possibilidade de continuar a aperfeiçoar-me no violoncelo com um excelente professor. Esta experiência abriu-me o apetite para futuras viagens/estadias prolongadas, ou não, lá fora.

Há já alguns anos que deixaste Portugal. O que é que as cidades dos países por que tens passado te oferecem de diferente?
Em Praga tive a sorte de, na altura, arranjar um quarto no bairro judeu, bastante central. Mal punha o pé fora da porta era logo rodeada pela beleza da arquitectura desta cidade, já que sempre tinha gostado de Arte Nova. Praga também é uma cidade com uma actividade musical bastante intensa. Eles têm particular orgulho nos seus compositores (Dvorak, Smetana, Martinu, etc) sendo que muitos dos concertos de lá incluem pelo menos uma obra de um compositor checo, o que me fazia sempre muito feliz.
Devo destacar Nova Iorque pela oferta cultural mais diversificada e intensa que alguma vez experienciei- os concertos de jazz, ou ópera, teatro, broadway, museus que frequentei tanto quanto possível. Recordo-me de uma noite em particular, em que andava a saltitar de bar em bar com música ao vivo e em que o bar seguinte tinha músicos melhores que os bares anteriores, já para não falar dos músicos no metro e na rua, de uma qualidade espantosa. Por outro lado, fiz lá bons amigos que me fizeram sentir em casa logo desde o início.
Amesterdão é a cidade do meu coração (a seguir a Lisboa). A Holanda foi um país que me recebeu muito bem. Apesar do choque cultural inicial ter sido considerável, rapidamente comecei a respeitar a abertura, a tolerância, e a frontalidade (facilmente confundida com má educação para alguém como eu, que vem de um país do sul) que caracterizam o povo holandês. Os amigos que lá fiz (em menor quantidade mas não em qualidade) são, creio, para toda a vida.

A partir dos 20 anos, foste por duas vezes distinguida no Prémio Jovens Músicos, na categoria de música de câmara. Anos mais tarde formaste um quarteto de cordas. Essas experiências do PJM foram determinantes ou já sabias que a música de câmara desempenharia um papel importante na tua carreira?
O gosto pela música de câmara já existia desde antes. A escola de música que frequentei dos 4 aos 17 anos (antiga Fundação Musical dos Amigos das Crianças, agora Academia Musical dos Amigos das Crianças) apostava fortemente nas classes de conjunto, o que possibilitou que desde muito cedo começasse a tocar com colegas- sempre um prazer enorme, comparado com o estudo solitário do instrumento numa sala. Adoro fazer música de câmara porque gosto de tocar e aprender com colegas, ao mesmo tempo que me permite uma certa expressão individual.

Recentemente ganhaste um lugar de violoncelista na Noord Nederlands Orkest. Voltar para Portugal não se encontra nos teus planos mais próximos, certo?
Neste momento as coisas estão a correr bem em Amesterdão, o que não quer dizer que nunca mais volte para o meu país. Na verdade gostava de começar a desenvolver um projecto artístico para breve, em Portugal, um festival de música de câmara.

Depois de Lisboa, estudaste na República Checa, nos Estados Unidos da América e na Holanda. Porque escolheste fixar-te na Holanda?
A decisão de ficar na Holanda deu-se porque percebi que as estruturas culturais e socio-económicas deste país me permitem levar a cabo o estilo de vida musical que sempre quis, de natureza variada. Não foi um percurso fácil, mas lá arranjei um trabalho part-time de orquestra, um ou dois concertos de música de câmara por mês, alguns alunos privados e ainda me resta algum tempo para vir tocar com a Orquestra  XXI e desenvolver quaisquer outros projectos que me realizem a nível pessoal/profissional. Para além disso, é lá que vivo com um músico muito especial e “partner in crime” com quem me casei recentemente, o violinista brasileiro Eduardo Paredes.

Se te fosse dada a oportunidade de melhorar um só aspecto do meio musical português, o que mudarias?
Se pudesse mudar um aspecto do meio musical português, seria a criação de mais oportunidades para os músicos; gostava que os músicos que vivem em Portugal não tivessem uma carreira que passasse quase exclusivamente por tocar em orquestras e/ou dar aulas. Gostaria que houvesse uma rede maior de apoios às artes mas, para além disso, também uma programação mais original e atractiva para o público em geral, que o justificasse.

De que sentes mais saudades, estando fora de Portugal?
Tenho saudades das pessoas, sejam eles família, amigos ou até desconhecidos que encontro no dia a dia; sinto-me bem sempre que cá venho. E do sol, e do calor! Muitas saudades de sair de casa sem que imediatamente me veja obrigada a contrair todos e cada músculo do meu corpo por causa do frio.

Qual foi a experiência mais importante que o estrangeiro te proporcionou?
(Estas perguntas são mesmo difíceis) Confesso que tenho dificuldade em escolher uma só experiência no estrangeiro que tenha sido realmente importante. Tudo foi importante porque me moldou naquilo que hoje sou. Se tivesse ficado em Portugal há 9 anos, tudo estaria bem à mesma, tenho a certeza, mas seria uma pessoa muito diferente daquela que sou hoje.
Os músicos que conheci (professores, colegas de conservatório e, mais tarde, de quarteto e orquestra), assim como os amigos que fiz, mudaram a minha maneira de ver a música e a vida. Estou, no entanto, igualmente grata a todos os músicos que conheci, muito antes, em Portugal, pois se não fossem eles não teria tido a preparação e abertura que me permitiram desfrutar e aprender tanto lá fora.

Embora não tenhas tido disponibilidade para integrar todos os programas da Orquestra XXI, estás associada ao projecto desde a sua primeira digressão. Em que é que o projecto pode não ter correspondido às tuas expectativas?
Na verdade, não mudava nada! Saí super satisfeita dos dois projectos em que participei, tanto do ponto de vista humano como artístico. Longa vida à Orquestra XXI, cujo principal mérito se prende, a meu ver, ainda mais com a manutenção do projecto (que não deve ser fácil) do que com o pontapé de saída inicial! Muitos parabéns!

Que projectos musicais tens para os tempos mais próximos?  
Por enquanto continuo a desenvolver o trabalho que tenho na orquestra, com o meu trio com piano e com os meus alunos. Está para breve a organização de um festival de música de câmara em Faro, que irá também ao encontro de outras artes (teatro e literatura) e promove um intercâmbio entre a Holanda e Portugal! Espero que corra tudo bem e que seja possível levar este projecto a bom porto, que ao realizar-se contará com a presença de músicos de qualidade excepcional e espectáculos muito especiais, programados com muito cuidado e atenção. Mais notícias, em breve.

abril 2016

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