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Dinis Sousa

Dinis Sousa (Porto, 1988) | Londres, desde 2006
direcção de orquestra

[Arte no Tempo / Orquestra XXI] O que te levou a ir estudar para Londres?
Na altura em que decidi ir para Londres, não vim para estudar música, mas sim cinema. A mudança de direcção aconteceu depois, mas as razões que me levaram a escolher Londres para estudar cinema seriam as mesmas se tivesse escolhido logo estudar música. Londres, como cidade muito grande que é, tem um meio artístico incomparavelmente maior do de qualquer cidade portuguesa. Isto não se traduz apenas em vantagens; há certos problemas que surgem com uma dimensão tão grande mas, de forma geral, a abertura da cidade a pessoas e projectos transforma-a num centro onde quase tudo pode acontecer.

Qual é a vivência mais importante pela qual imaginas que poderias não ter passado, caso não tivesses saído de Portugal?
Talvez o contacto com o Sir John Eliot Gardiner, que para mim tem sido muito importante. Penso que, se nunca tivesse saído de Portugal, nunca teria tido a oportunidade de o conhecer e acompanhar o seu trabalho durante estes últimos anos, simplesmente pelo facto da maior parte desse trabalho acontecer aqui em Londres. A grande diferença é que, em qualquer parte do mundo podemos “conhecer” maestros, instrumentistas, compositores, mas nem em todas as cidades é possível manter um contacto regular com as pessoas com quem gostaríamos de aprender.

Que vantagens encontras no país de acolhimento comparando com a cidade onde residias em Portugal?
Sobretudo a quantidade de oportunidades que aparecem todos os dias, seja concertos, masterclasses, ensaios, etc. Ainda hoje me surpreendo com a oferta cultural que há em Londres e com a facilidade com que se consegue aceder a quase tudo. Enquanto maestro, talvez a oportunidade de, quase em qualquer momento, poder assistir a um ensaio de um dos muitos grandes maestros que cá vêm, como o Simon Rattle ou o Bernard Haitink, seja a grande vantagem.

O que te levou a criar a Orquestra XXI?
O que me levou a criar a Orquestra XXI foi simplesmente a ideia ter aparecido de repente, em conversa, e me ter parecido que tinha pernas para andar! Claro que as ideias não aparecem por acaso e eu sentia já há algum tempo que gostava de fazer alguma coisa em Portugal, da mesma forma que fazia em Londres. E, como eu, muitos outros músicos sentiam a mesma coisa. Quando a ideia surgiu, bastou-me falar com dois ou três músicos que o entusiasmo se foi disseminando e a palavra foi passando.

Que futuro auguras para a Orquestra XXI?
A Orquestra XXI teve um começo fantástico, reconhecido tanto pelo público como pela crítica. O maior desafio é o de assegurar a continuidade do projecto, mantendo as linhas que estiveram na sua origem mas também estando abertos à mudança e a novas ideias. Não imagino a Orquestra XXI a reunir-se em Portugal todos os meses, até porque creio que tal nem seria possível, mas espero que consigamos manter uma actividade regular e que, aos poucos, possamos ir crescendo e fazendo um trabalho cada vez melhor e mais variado.

Como imaginas a música em Portugal daqui a 15 anos?
Nos últimos 15 anos, o panorama musical português mudou tanto que, se imaginarmos como estará daqui a 15 anos, as mudanças podem ser ainda maiores. A quantidade e a qualidade dos músicos portugueses cresceu exponencialmente nas últimas décadas e continuará a crescer, à medida que temos escolas a preparar cada vez melhores alunos. Neste momento, a grande dificuldade é a capacidade destes músicos se integrarem no tecido musical português, uma vez que, com todas as dificuldades económicas que vivemos, a maioria das instituições parou de crescer e, em alguns casos, diminuíram a actividade ou mesmo deixaram de existir. Se conseguirmos contrariar esta tendência dos últimos anos, com a quantidade de estruturas já existentes e músicos cada vez mais dispostos a arriscar e a fazer projectos interessantes, penso que Portugal pode ter um panorama musical muito activo daqui a 15 anos.

Em que circunstâncias te imaginas a regressar a Portugal?
Esta talvez seja a pergunta mais difícil… O que nos levou a criar a Orquestra XXI foi o desejo de poder fazer música em Portugal sem termos que desistir dos projectos que desenvolvíamos no estrangeiro. Neste momento, para voltar definitivamente para Portugal, teria que deixar para trás muitas coisas que me fariam muita falta. Por outro lado, adorava trabalhar em Portugal, mas também a vida de músico implica quase sempre algumas deslocações, por isso veremos o que o futuro pode trazer.

Que projecto artístico se configura nos teus sonhos como difícil de realizar?
A Orquestra XXI configurava-se difícil de realizar… e concretizou-se! Neste momento, entre a Orquestra XXI e os projectos com que estou envolvido em Londres, não me sobra muito tempo para pensar em projectos novos, mas isso não quer dizer que não vão surgindo ideias que, quem sabe um dia, possam a vir materializar-se…

janeiro 2015

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