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Carlos Lopes sobre ‘TO_mbeau’

Nascido em Guimarães, Carlos Lopes (1995) estudou piano e composição na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (Porto) antes de seguir para Colónia onde, actualmente, prossegue estudos em composição. Em 2021, foi jovem compositor em residência na Casa da Música, o que lhe terá permitido trabalhar com os agrupamentos da casa. Concluiu recentemente a primeira parte da partitura de TO_mbeau [2023], uma obra para quinteto pierrot resultante de encomenda da Arte no Tempo para o ars ad hoc, que terá a sua estreia em meados de Abril, nos Festivais de Viseu e de Leiria. A propósito da mesma, a Arte no Tempo colocou algumas questões ao compositor

[AnT] ‘TO_mbeau’, para quinteto pierrot, surge a propósito de uma encomenda da Arte no Tempo para o ars ad hoc. Como começou o processo de idealização da obra?
[CL] Em 2021, estimulado por uma conversa com o João (pianista do ars ad hoc), esbocei umas páginas de música com o objectivo de compor uma peça para piano. A partitura nunca foi parar à gaveta, mas tive de a deixar de lado em função de outros projectos. Quando fui contactado pela Arte no Tempo, percebi que estava na hora de usar este material e expandi-lo para conceber uma obra para quinteto.

Nas notas de programa, referes que “‘TO_mbeau’ é uma amálgama de dois conceitos, cada qual contribuindo para o imaginário sonoro da obra: ‘Tombeau’ (derivado do francês – túmulo, sepultura)” e “TO, de Optimização Topológica”, um processo matemático. O que motivou a chegada a estas referências?
A maior parte das minhas peças são um puzzle de referências. Por mais simples que seja a ideia inicial, acabo sempre por permitir o cruzamento ou a interferência de inspirações distintas na conceptualização de uma obra. Neste caso, tendo a música surgido em primeiro lugar, os conceitos vieram da análise do material musical e enquanto referência à minha própria metodologia. A saturação do registo grave no início da obra sugeria-me um túmulo, a imagem de algo visceral que estremece e permanece nas profundezas. Noutra perspectiva, transformar o esquisso original numa obra para quinteto exigiu filtrar o que tinha escrito, cortar e adicionar processos de composição. Este tipo de trabalho fez-me recordar os métodos de optimização topológica, para o fabrico de peças mecânicas com desempenho aperfeiçoado e cuja construção permita economizar recursos.

Esta amálgama entre os dois conceitos, que se desvendam na forma de trocadilho no título da peça, desperta-me para uma possível dicotomia entre uma proposta sonora mais subjectiva e sensitiva (associada ao carácter da peça, à conotação fúnebre e ao som “das profundezas” que propões) e uma mais técnica e teórica (associada ao tratamento da escrita e do material sonoro). Revês-te nesta ideia? Estes dois conceitos são, de algum modo, dois pesos idênticos de uma balança que emaranhaste para escrever este quinteto?
Sim, sem dúvida. Considero o título de uma obra musical bastante importante, visto que se trata do primeiro contacto do ouvinte com a mesma. A impressão causada pelo título é suficiente para espoletar um imaginário, aqui reflectido na carga dramática da palavra “Tombeau” e na deformação desta através de caracteres associados à digitalização como o “underscore” ou o aproveitamento das duas primeiras letras para formar a sigla “TO”. Creio que “emaranhar” é, sem dúvida, o termo mais adequado para descrever a forma como os dois conceitos interagem ao longo desde quinteto.

Será o imaginário sonoro que propões perceptível ao ouvinte, ou funciona mais como um subtexto da intenção de escrita?
Na minha experiência, o grau de abstracção deste tipo de música pode levar o ouvinte a imaginários nos quais eu nunca teria pensado, sem danificar a sua experiência da obra. Sou apologista do público que não se sente obrigado a ler a nota de programa. Prefiro pensar que proponho um universo sonoro e que, na percepção da audiência, ele é absolutamente consistente.

Podes elucidar-nos sobre a exploração sonora que fazes de cada instrumento?
Procurei, sobretudo, usar técnicas que se assemelhassem a fenómenos digitais e tipos de distorção de sinal sonoro. O ruído de fundo de uma gravação, por exemplo, pode ser expresso pelos instrumentos de sopro através de um som que utilize muito ar. A distorção de sinal é facilmente comparável ao excesso de pressão de arco nas cordas que, ao ser usado, desfaz as alturas definidas e provoca um timbre bastante agreste. No piano, por exemplo, é colocada uma folha de papel sobre os bordões, que vibra e distorce as notas graves do instrumento.

Uma vez que referes que “as ideias musicais partem de uma reconstrução acústica dos fenómenos digitais da filtragem, corte e mutilação do som”, ideias que advêm da referência à Optimização Topológica, nalgum momento equacionaste a utilização de electrónica nesta peça?
Não. Poderia ter considerado o uso de electrónica, talvez para processar o som dos instrumentos ou exponenciar os fenómenos referidos, mas nunca fez parte dos meus planos.

Em que medida o contacto directo com os músicos terá pesado no processo de composição e nas ideias que tinhas para a obra?
Assisti a vários concertos com os músicos do ars ad hoc que me inspiraram e certamente me influenciaram enquanto compositor. Porém, não tenho a certeza se o contacto que tive com eles afectou de alguma forma aquilo que escrevi em ‘TO_mbeau’. Quando muito, sabia que se tratava de músicos capazes de executar tudo o que lhes apresentasse e que, como tal, podia escrever livremente.

Esta é a primeira obra que escreves para esta formação. Qual tem sido a tua relação com a escrita para música de câmara e para cada um destes instrumentos em particular?
Assistir a concertos de pequenos agrupamentos sempre foi uma das minhas predilecções, pelo intimismo que uma formação como esta proporciona ao público. Independentemente do tipo de repertório, um bom grupo de música de câmara revela precisão e intercomunicação no gesto musical, como que uma coreografia embutida na partitura que os músicos executam. Nos últimos anos escrevi peças solísticas para cada um dos cinco instrumentos que perfazem o quinteto pierrot e sou um entusiasta desta formação, portanto, fico bastante entusiasmado com o resultado daquilo que compus para o ars ad hoc.

O que dirias ao público para o convidar a assistir aos concertos?
Diria que devem aproveitar todas as oportunidades que tiverem para ouvir o ars ad hoc e apoiarem a Arte no Tempo. Trata-se de um privilégio ainda existirem agrupamentos portugueses que acompanham aquilo que está a ser feito no mundo da música contemporânea e que se dedicam à divulgação de repertório mais recente. É, naturalmente, um privilégio acrescido tratar-se de um conjunto de músicos brilhantes e empenhados no seu trabalho.

Obrigada pelas tuas respostas.

entrevista realizada em Março de de 2023, por Matilde Andrade