Tiago Cutileiro

Publicado em testemunhos

Sobre as Jornadas Nova Música (1997-2001)

Algures no ano de 1998, frequentei a masterclasse de composição que a Gulbenkian organizava regularmente e que tinha o compositor Emmanuel Nunes como professor. Neste meu primeiro curso conheci o Ricardo Guerreiro, o João Pais e o Luís Pena. Julgo que só conheci a Diana Ferreira no curso seguinte (uns meses depois). Eles eram amigos, os seus estudos musicais já os tinham juntado antes e as Jornadas Nova Música em Aveiro estavam em fase de arranque. Eu era (sou) mais velho, tinha um percurso académico mais atabalhoado e uma vivência periférica (Lagos, Algarve). Estava, na altura, a iniciar a licenciatura em composição na Universidade de Évora. Juntou-nos, penso, um certo sentido de humor, uma sensação de que partilhávamos um gosto por uma música no limite de outra coisa, e o Nunes (aqui também uma sensação: que gostávamos dele e que ele gostava de nós).
Para mim, que nunca participei na organização das Jornadas, aquilo parecia muito natural, uma extensão daquele grupo de pessoas, como se eles não pudessem ter feito outra coisa. A ideia era "genial" (expressão que o Nunes, com aquele fantástico timbre de voz, gostava de usar): reunir compositores relevantes, para o nosso universo sonoro; reunir músicos bons e jovens (ainda com vontade de conhecer e compreender nova música); trazer um maestro de referência; realizar um mini festival com concertos de músicos importantes; e, por fim, reunir jovens compositores com obras compostas para este evento e que assim as ouviam e as mostravam à comunidade musical e ao grande (pequeno) público. Tudo isto num cenário de alguma vanguarda tecnológica (Universidade de Aveiro), permitindo usar meios electrónicos avançados e gravar ensaios e concertos com bastante qualidade. Lembro-me de ter querido fazer um trabalho, na minha universidade, sobre estes quatro jovens (Diana, Luís, João e Ricardo) - na senda de Greenaway, Four American Composers (ou seria Giacometti, Povo Que Canta?) - que escreviam uma história da música pessoal no virar do milénio em Portugal. Claro que não fiz trabalho nenhum, claro que as Jornadas acabaram ao fim de alguns anos (ainda nos reunimos, num concerto escondido mas memorável, que celebrava os 10 anos), claro que quase todos saíram de Portugal: Ricardo foi quatro anos para Itália, o João e o Luís foram para a Alemanha (ainda lá [cá] estão), só a Diana continua por Aveiro (ainda há pouco tempo a encontrei por lá - e continua a rir muito, o que é bom). Eu também continuei por Lagos até que, só recentemente, me mudei para Berlim.
Foi pena aquilo de não ter feito o trabalho. Agora, cerca de 15 anos depois, poder-se-ia ver como estamos todos ainda, de alguma forma, juntos - todos trabalhamos com esta coisa que é uma música diferente (esquisita) e, penso, continuamos a pensar que, por cada um dos outros existir, não estamos sozinhos neste mundo de sons estranhos (da vontade de os ouvir, de os criar e de falar sobre isso). E, sobretudo, continuamos a rir-nos uns dos outros e de tudo isto.
No ano passado encontrei o Emmanuel Nunes por cá (Berlim), uns meses antes de ele morrer. Não o via há muitos anos. Riu-se, lembrava-se de (todos) nós (como pude ter pensado o contrário?).

Tiago Cutileiro (Berlim 2013)