III Jornadas Nova Música – Aveiro 1999

Publicado em JNM arquivo

10 a 19 de Dezembro de 1999

cartaz2As Jornadas Nova Música nasceram de uma necessidade de viver a Música criada, interpretada, pensada e fruída por pessoas que partilham connosco a mesma época.
Uma vivência que se quer o reflexo do seu tempo, que se quer em constante interrogação sobre as questões mais elementares que regem o nosso quotidiano, significa, no fundo, uma procura constante pelo Conhecimento e, ao mesmo tempo, uma constante insatisfação e inconformismo.
Não perdendo de vista estes mesmos princípios que nos levaram a criar em 1997 o Festival de Música do Século XX de Aveiro, temos vindo a introduzir alterações na programação das Jornadas que nos conduzam a uma maior aproximação desses ideais.  Assim, na presente edição programámos um conjunto de eventos incidindo numa só figura: o compositor Emmanuel Nunes. Ao longo de três dias ouviremos as suas reflexões sobre a sua própria música e a de outros compositores, através de três conferências, e teremos oportunidade de ouvir uma pequena amostra da sua música, quer electroacústica quer instrumental - contando para tal com a presença do violetista Christophe Desjardins. Num âmbito mais pedagógico e também mais prático, o compositor fará ainda um seminário de composição, incidindo no trabalho sobre a escrita musical com jovens compositores.
Mantendo uma especial atenção pela formação dos jovens músicos, convidámos alguns dos mais prestigiados pedagogos nas suas respectivas áreas a partilhar conosoco o saber que inova, mantendo acesa a curiosidade e o gosto pela música. O Estagio "Nova Musica" é disso um exemplo. Dirigidas pelo maestro e compositor Wolgang Niessner, serão dadas a ouvir cinco novas obras compostas especialmente para as Jornadas, sendo quatro delas obras de jovens compositores portugueses (alvo de prévia selecção por um júri). A interpretação estará a cargo de cerca de 30 jovens músicos, oriundos de várias escolas do país, e do baixo-baritono António Salgado. Todo o trabalho desenvolvido ao longo de oito dias culminará com uma apresentação no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro e outra na Casa de Serralves, Porto.
Paralelamente decorrerão ainda as Master Classes  de Saxofone, por Henk van  Twillert, de composição, por W. Niessner, Edwin Roxburgh e, conforme referido, E. Nunes, e ainda de Fagote, por Pascal Gallois.  Privilegiando o debate sobre vários assuntos relacionados com a música, teremos conferências proferidas pela musicóloga Teresa Cascudo, pelos compositores E. Roxburgh e E. Nunes e pelo fagotista P. Gallois.
Para completar a programacao das 3as Jornadas Nova Música, projectámos uma série de concertos onde pretendemos divulgar o sumo da arte contemporânea. Também aqui não nos esquecemos dos jovens músicos e, à semelhanca dos anos anteriores, contamos com a presença de um jovem e promissor violetista português - Jorge Alves, que fará a primeira audição em Portugal de uma obra de um compositor inigualável, recentemente desaparecido, e à memória de quem dedicamos o concerto de abertura: Gerard Grisey.
Para além dos recitais de solistas de Henk van Twillert e Pascal Gallois - ambos dedicatários de compositores como Luciano Berio - escolhemos ainda um programa um tanto diverso para o recital de electroacústica, onde daremos a escutar obras incontornáveis da História da Música do Século XX (algumas em primeira audição portuguesa).
Esperamos com esta proposta contribuir para um aumento da vivência cultural, criando um espaço de debate sério e crítico.
A Organização

Programa Geral

Dia 10, Sexta-feira

Vortex Temporum (1994/96) de Gérard Grisey

Uma introdução-em-forma-de-homenagem à audição gravada da obra.
Um caso exemplar de isenção estética aprofundando o sulco inapagável do tempo no turbilhão autêntico duma imaginação "naturalística", mas fortemente filtrada por uma extensa cultura que se confronta a cada passo com o desfiladeiro que separa, através das épocas, a natureza do som da sua biografia musical.
Saltar o desfiladeiro significa compor.
A obra verdadeira é uma ponte que passa do natural ao musical duma forma irreversível.

Emmanuel Nunes [biografia]

I Parte

II Parte

1) 1º audição em Portugal

O presente recital é dedicado à memória de Gérard Grisey.

Jorge Alves [biografia]

Dia 11, Sábado

Parcialidade extrema dum auto-retrato sonoro ou o acaso provocado duma constante musical. (Com exemplos gravados)

Emmanuel Nunes [biografia]

Apresentação (em francês) de Einspielung III com exemplos ao vivo por Christophe Desjardins.

  • Michael Jarrell, ...some leaves II... (1998)
  • Emmanuel Nunes, Einspielung III (1981)
  • Bernd Alois Zimmerman, Sonata para viola solo (1955)

Christophe Desjardins [biografia]

Dia 12, Domingo

Algumas reflexões de inspiração fenomenológica sobre a sensação de velocidade em andamentos lentos de partituras de diversas épocas.
Instante pontual, duração, ritmo, tempo metronómico, agógica, momento "longo", tempo, Memória.
A duração do ritmo, o ritmo da duração.
Agógica: rigor e liberdade. Intenção musical.
A interpretação como factor determinante duma transmissão possível do tempo interior da obra. Tempo interior tomado não exclusivamente como algo de metafísico e/ou psicológico, mas como o lugar geométrico de um máximo de factores de ordem técnica e de imaginação que fazem da obra um individuum, e que o intérprete tem por missão realizar (tornar real) a cada execução.

(Exemplos ao vivo e gravados)

Pianistas | Ana Pires; Ricardo Sá Leão

1) 1ª audição em Portugal

Dia 13, Segunda-feira

Questões de estilo e linguagem na música contemporânea em Inglaterra

A diversidade de estilo no que respeita a composições em todo o mundo é uma questão a que se deve prestar homenagem na viragem do século, mas muito frequentemente compositores que podem ser vistos como avançados encontram-se isolados do grande público, porque não conseguem identificar-se com  as tendências da moda tais como minimalismo ou pós-modernismo. A controvérsia por detrás desta apresentação é que nenhum compositor que conscientemente faz música para agradar a tais ’escolas’ pode compor nada mais do que musica prescritiva, mesmo que isso tenha um sucesso durante algum tempo junto às massas.  A forma como esta proposição é reflectida na música contemporânea no Reino Unido será explorada com relação a composições por tais compositores como Birtwistle, Harvey e Adès, juntamente com o ponto de vista do conferencista. As características estéticas e técnicas relacionadas com tais compositores serão examinadas para determinar a natureza distinta das suas motivações artísticas.

(conferência proferida em inglês)

Edwin Roxburgh [biografia]

Dia 14, Terça-feira

O papel do maestro como um aspecto da composição

Até ao Século XX os músicos de orquestra podiam bem argumentar contra a necessidade de um maestro. Mesmo hoje, o American Orpheus Ensemble demonstra este género de independência. As complexidades de compositores como Boulez desafiam uma tal abordagem e apresentam o maestro como um aspecto integrante da técnica de composição. Este conceito é explorado através de um exame das partituras que identificam as técnicas de direcção como parte do seu design gráfico. Serão também examinadas técnicas de direcção associada.

(conferência proferida em inglês)

Edwin Roxburgh [biografia]

Dia 15, Quarta-feira

Fernando Lopes-Graça e a tradição musical como problema intelectual e estético

"Na minha comunicação, abordarei a relação do compositor Fernando Lopes-Graça com a ideia de tradição musical e a relevância desta questão ao longo da sua carreira. Por um lado, verificaremos as imagens da tradição, nacional e internacional, construídas nos seus textos doutrinários. Por outro lado, analisaremos a maneira como no seu trabalho de composição foram assimilados e transformados alguns ícones musicais do cânone ocidental. Particularmente, centraremos a nossa exposição na Sonata para piano nº 6 do autor."

Teresa Cascudo [biografia]

Dia 16, Quinta-feira

Técnicas contemporâneas para oboé

O repertório para oboé de Heinz Holliger e de Edwin Roxburgh explora um alargado e expressivo leque do instrumento através duma produção não ortodoxa. Enquanto que outros compositores tais como Berio manipularam cautelosamente as características, o leque de informação disponível a compositores-instrumentistas não é muito utilizado. A apresentação abordará as técnicas, suas representações gráficas e implicações em termos de composição com ilustrações gravadas e ao vivo. Adaptações electrónicas serão o ponto principal da discussão.

(conferência proferida em inglês)

Edwin Roxburgh [biografia]

[recital para saxofone barítono solo]

I Parte

II Parte

  • Rio Noda, Improvisation
  • Rio Noda, Maï
  • Carlos Bairro, Portrait of Distortion 2)

1) 1º audição em Portugal

2) estreia absoluta

Henk Van Twillert [biografia]

Dia 17, Sexta-feira

Começarei por esta reflexão que me fez, há alguns anos, o compositor americano Elliot Carter: “É difícil para um compositor utilizar o fagote, mesmo em orquestra, porque  não se sabe nunca com exactidão o que será reproduzido. Há fagotistas que tocam com um som muito aberto e redondo e outros com um som muito diferente, mais agudo e timbrado, e isto, muitas vezes, numa única cidade; enquanto que para a flauta e o clarinete por exemplo o compositor poderá mais facilmente imaginar o que se ouvirá da sua peça pois o som é mais standard”.

O fagotista pode, frequentemente, restringir as possibilidades sonoras do seu instrumento com o objectivo, perfeitamente  louvável, aliás, de poder reproduzir o que foi pedido pelos compositores. Enquanto isto, os compositores muitas vezes hesitaram em utilizar o fagote porque as suas possibilidades não eram bem conhecidas.

Entre as diferentes escolas que se desenvolveram no mundo inteiro a partir do século XVIII, cada escola gradualmente se caracterizou por uma sonoridade e um fraseado particular do fagote. De tal forma que hoje em dia é possível reconhecer a escola e, às vezes, o país do fagotista apenas ao ouvir a sua sonoridade, o seu volume e o seu fraseado. Isto é devido à grande diversidade possivel da forma de tocar o fagote que felizmente nunca foi e, espero, nunca será um instrumento “standard”.

Cada vez mais os maiores compositores vão utilizando diferentes características e registos do fagote. No grave e piano (Tchaikovsky, início da 5ª  Sinfonia) ou o agudo, três oitavas acima (Ravel - Boléro,  Stravinsky - Le Sacre du Printemps). Stravinsky abriu incontestavelmente novas vias na utilização do fagote. Uma anedota interessante é a de Saint-Säns que aquando da estreia do Sacre du Printemps, em Paris, em 1911 pensou logo nos primeiros compassos: “O que é que estou a ouvir? O fagote? não é assim que se deve utilizar o fagote!” (e com estas palavras deixou a sala...) Mas dez anos mais tarde em 1921, na sua Sonata para Fagote e Piano, Saint Saens fez tocar o fagote até o Mi5, um tom abaixo da do Sacre ....

A grande diversidade na forma de tocar o fagote advem essencialmente do facto de que é um instrumento de palheta dupla. O fagote tem cerca de 2cm de palheta que ressoa na boca e na cabeça à semelhança das cordas vocais para o cantor. Da mesma forma que para o cantor, a ressonância pode igualmente ser consideravelmente modificada pelo posicionamento da laringe e da língua. Para além disso, os 2m60 do tubo cónico de buracos que seguem contribuem para a amplificação da ressonância da palheta dupla.
Cada fagotista tem a sua pronúncia e, portanto, toca com um “sotaque” próprio da sua cultura.

O fagote pode adaptar-se e interpretar todos os repertórios trazendo, em cada vez, diferentes aspectos da sua personalidade. A condição é que o discurso seja coerente e traduza uma pesquisa artística.

O fagotista encontra-se frequentemente, de certa forma, “fechado” num único estilo de tocar criando assim uma rotina. Isto é devido à necessidade de agradar a um jurí correspondendo às características ideais de uma escola com o objectivo de sair-se bem nos estudos ou de obter um lugar na orquestra. Com  efeito, as noções do belo e do bom são puramente subjectivas e naturalmente diferentes de país para país. A reacção natural de cada um é muitas vezes a de classificar como mau o que não corresponde aos seus critérios habituais. O problema é que actualmente num concurso para um lugar numa orquestra, a quase totalidade dos candidatos toca da mesma forma e constata-se, cada vez mais, que aquele que toca de acordo com a sua própria personalidade e com o seu próprio estilo é quem ganha o concurso.

Há duas grandes etapas na aprendizagem de um instrumento:

1. imitação da forma de tocar do professor e de um ideal. Este é mais importante pois é necessário um objectivo claro para obter um bom domínio.

2. desenvolvimento da sua própria personalidade instrumental e musical através  de uma utilização multipla do fagote. É necessário conhecer novas técnicas para tocar o novo repertório mas também porque elas contribuem para uma melhor interpretação de todo o repertório.

O sistema alemão do fagote, desde há um século, permite corresponder o melhor possível à interpretação de todos os repertórios, de todas as épocas e de todas as formações (solista, música de câmara e orquestra...).

Foi-me necessário  encontrar respostas às múltiplas questões que me foram postas durante estes últimos quinze anos ao encontro da música contemporânea, de Pierre  Boulez e outros compositores, dos mais extremos desideratos e em particular de Luciano Berio que me fez a honra de me escrever a sua décima segunda Sequenza.

As respostas estão em parte contidas num método para utilização dos compositores, que desenvolverei na conferência.

(conferência proferida em inglês)

Pascal Gallois [biografia]

Pascal Gallois [biografia]

Dia 18, Sábado

Wolfgang Niessner, direcção

António Salgado, baixo-barítono

I Parte

II Parte

1) estreia absoluta


Orquestra de Câmara do Estágio de Interpretação "Nova Música"
A orquestra de câmara é constituída por cerca de trinta jovens músicos, provenientes de várias escolas do país, que foram seleccionados pelo maestro e, durante dez dias, trabalharam repertório completamente novo com o maestro Wolfgang Niessner, professores e os jovens compositores.

Dia 19, Domingo

Wolfgang Niessner, direcção

António Salgado, baixo-barítono

I Parte

II Parte

 

Orquestra de Câmara do Estágio de Interpretação "Nova Música"
A orquestra de câmara é constituída por cerca de trinta jovens músicos, provenientes de várias escolas do país, que foram seleccionados pelo maestro e, durante dez dias, trabalharam repertório completamente novo com o maestro Wolfgang Niessner, professores e os jovens compositores.

Estágio de Interpretação Nova Música

Orquestra de Câmara do Estágio de Interpretação "Nova Música"

Direcção do Estágio de Interpretação: Wolfgang Niessner.

A orquestra de câmara é constituída por cerca de trinta jovens músicos, provenientes de várias escolas do país, que foram seleccionados pelo maestro e, durante dez dias, trabalharam repertório completamente novo com o maestro Wolfgang Niessner, professores e os jovens compositores.

Flauta | Daniela Anjo, Marco Pereira, Isa Ferreira
Oboé | Francisco Rocha
Clarinete | Rui Travasso, Mário Batalha, Helder Gonçalves
Fagote | Sandra Silva
Trompa | Marco Costa
Trompete | Filipe Pinho, Luís Calhanhas
Trombone | Manuel Vieira
Percussão | Aldovino Munguambe, Vasco Ramalho, Bruno Estima, António Bastos
Canto | Joaquina Ly
Violino | Marcos Lázaro, Nuno, Rodrigo Queirós
Viola | Emília Alves, Luís Norberto, Lúcia Lima
Violoncelo | João Santos, Constança Blanc
Contrabaixo | Renato Andrade, Helder Ramos

Master Classes

10h00 - 13h00

Este seminário incidirá sobre as obras apresentadas pelos alunos. O professor analisará e comentará os trabalhos propostos.

Emmanuel Nunes [biografia]

10h00 - 13h00

O compositor irá analisar e comentar a sua obra Faróis Distantes, bem como obras apresentadas pelos alunos.

Wolfgang Niessner [biografia]

10h00 - 13h00; 14h30 - 17h30

O seminário incidirá sobre a análise das obras apresentadas pelos alunos, que serão comentadas pelo compositor.
Na parte da tarde E. Roxburgh fará ainda uma análise de várias peças de Pierre Boulez, em ocasião do seu 75º aniversário.

Edwin Roxburgh [biografia]

10h00 - 12h30; 14h00 - 17h30

A master class basear-se-á em todo o repertório do saxofone, incidindo especialmente no séc. XX. O professor irá ensinar algumas técnicas contemporâneas para saxofone, tais como respiração circular, slaptongue, multifónicos, toptones, etc., abordando obras de Rio Noda e Gijs van Dijk.

Henk Van Twillert [biografia]

9h30 - 13h00; 14h00 - 18h00

A master class será baseada em todo o repertório de fagote, com especial ênfase no séc. XX, focando em profundidade questões técnicas e interpretativas do instrumento.

Pascal Gallois [biografia]

Todas as actividades tiveram lugar no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, à excepção do segundo concerto da Orquestra de Câmara (dia 19), decorrido na Casa de Serralves, Porto.


Direcção Artística

Diana Ferreira, João Pais, Luís Pena

Produção Executiva

Diana Ferreira

Secretariado, Gestão Financeira, Design de Publicidade

Fundação João Jacinto de Magalhães