Isabel Soveral e a electroacústica em Aveiro

Publicado em Conversas Arte no Tempo

IsabelJohnChowning
Uma das mais destacadas compositoras nacionais, Isabel Soveral é Professora de Composição, Teoria e Análise Musical no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, desde 1995, onde coordena o grupo de Composição, Teoria e Tecnologias da Música do INET-MD (Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança). Enquanto Directora do CIME (Centro de Investigação em Música Electroacústica da Universidade de Aveiro), criou em 2014 a plataforma Electroacoustic Winds (EAW), perspectivando um conjunto de actividades em Portugal e no estrangeiro, para os próximos anos.
É no âmbito dessa estrutura que surge o Electroacoustic Winds 2015 | I Congresso Internacional de Música Electroacústica de Aveiro, organizado pelo CIME, INET-md e Arte no Tempo.

[AnT/EAW] A plataforma EAW, que coordena, promoverá brevemente o I Congresso Internacional de Música Electroacústica de Aveiro, combinando investigação com formação e com a própria vivência musical. Em que contexto surge este projecto?
[IS] Há muito que a Universidade de Aveiro tem vindo, gradualmente, a investir neste campo. Pareceu-me importante criar um projecto que espelhasse a realidade vivida no Departamento de Comunicação e Arte, onde temos compositores com trabalho importante na área da música electroacústica, instrumentistas especializados na interpretação da música contemporânea- com ou sem electrónica- e teóricos que se têm debruçado sobre a música contemporânea (não é por acaso que o INET-MD tem um grupo com o nome “Composição, Teoria e Tecnologias da Música”).

O que caracteriza o EAW?
O EAW avançou com três questões essenciais: divulgar o trabalho já realizado, criando parcerias com instituições de programação; reforçar a investigação, envolvendo outros centros de investigação; envolver o mundo empresarial interessado na evolução da tecnologia musical. No que diz respeito à formação, a aposta foram os workshops complementares à formação académica, de que destaco os promovidos pelas empresas especializadas na área.

Num momento em que a crise nacional afecta igualmente a investigação científica, porquê investir num congresso numa área, de certa forma, marginal?
Na minha maneira de ver a arte e a ciência, nem numa nem noutra existem áreas marginais. Existem áreas com maior imediatismo do que outras. A criação de obra/pensamento não pára porque o país está em crise. Agora, é importante perceber a quem se refere quando diz “investir”; nós, os compositores e teóricos que trabalhamos com tecnologia da música, não paramos de investir nesta área nunca: é a nossa área de trabalho.

A música electroacústica, sobretudo quando não combinada com instrumentos acústicos, continua a ser um “gueto” que pouco atrai mesmo a grande maioria da comunidade musical. Terá essa música os dias contados?
A música electrónica está por todo o lado, em vários géneros musicais. A tecnologia está sempre em evolução e é o mundo empresarial que lidera este campo: são constantemente criadas novas aplicações informáticas e os músicos chegam a ter dificuldade em acompanhar a novidade das ferramentas de trabalho. Há centros de investigação mais direccionados para a música erudita que desenvolvem as suas próprias aplicações informáticas. Esta diversidade que torna mais difícil que se aposte numa só linha estética; há que repensar a programação para conquistar mais público. É claro que organizar um festival exclusivamente de música electroacústica- muito mais do que no contexto de um congresso, em que a vertente científica desempenha um papel preponderante-, sem instrumentos acústicos, sem imagem, etc., poderá não fazer tanto sentido actualmente. Há que diversificar.

Que destaques traz o cartaz do EAW 2015?
Como primeiro congresso, apostou-se em convidar figuras incontornáveis na evolução da tecnologia musical. Fomos buscar os “dinossauros”, como John Chowning, que é conhecido como "o pai do sintetizador digital", ou Jean-Claude Risset, com extraordinários contributos para a evolução da música por computador. Quando estes compositores iniciaram o seu trabalho nesta área, eram as empresas que os procuravam para criar, com base nas suas descobertas, novas máquinas e aplicações informáticas. As empresas percebiam o que na maior parte das vezes as universidades não atingiam: o potencial que as descobertas destes compositores/cientistas ofereciam. É interessante ver que John Chowning, hoje com vários Doutoramentos Honoris Causa, no início das suas descobertas não foi compreendido pela universidade onde trabalhava: foi a Yamaha que descobriu o potencial do seu trabalho.

Se este é o primeiro congresso, então haverá outras edições. Que linhas orientadoras definem a identidade do projecto e o que se pretende para a próxima edição?
Creio que uma das linhas orientadoras do projecto assenta na associação do pensamento criativo ao pensamento tecnológico, numa certa transversalidade. Perseguiremos a consolidação de uma linha que procure incentivar a interacção de obra e pessoas ligadas à criação, interpretação e investigação teórica, e as relações universidade – empresa e universidade –programação. Só numa abordagem mais abrangente se consegue avançar na captação de novos agentes activos (criadores e investigadores, por um lado, e novos programadores e públicos, por outro). Temos também o desejo de interagir com outras áreas, como o cinema, design e outras formas de expressão artística. Nesta medida, o próximo congresso é muito capaz de se debruçar sobre a relação da música electroacústica com o cinema, área em que a tecnologia musical é verdadeiramente fértil.

Considerando que a música electroacústica possa constituir um terreno fértil e que há trabalho que importa descobrir, o que crê que tem falhado na comunicação das obras desta forma de expressão artística? Como seria se, em vez de um congresso, programasse um festival?
O que tem falhado tem sido não haver uma abordagem mais aberta. Não estamos nos anos 70; não se pode criar guetos demasiado elitistas, mas pode-se integrar criação especializada de maneira que esta possa ser apreciada. A diversidade é um dos modos de contrariar o gueto e o caminho poderá passar pela criação de espaços (festivais, congressos...) em que o acesso a essas obras é tão natural como o acesso a outros géneros. Pode-se criar festivais interessantes em que, desde que se aposte na qualidade, é possível associar estéticas e géneros distintos que tenham em comum o recurso aos mesmos suportes tecnológicos, fazendo com que obras de carácter bastante diferenciado possam ser apreciadas.

Por vezes, a comunidade científica passa a imagem de um grupo absolutamente fechado cujos membros alternam entre o papel de actor e de espectador dentro de um mesmo circuito. Que perspectiva tem sobre esta realidade?
Há uma tendência para esse tipo de ‘’ilha’’. Se analisarmos as universidades americanas, percebemos que dois terços (ou mais) do que produzem é para consumo interno. No entanto, esta engrenagem (que compreende criadores, cientistas, estruturas, laboratórios, etc) é favorável à emergência de novas ideias, descobertas que poderão mudar o curso das coisas. Como é sabido, John Chowning mudou a paisagem sonora para todo o sempre.

Enquanto compositora, as suas experiências no domínio da electrónica pura remontam ao seu período de formação. O que a leva a recorrer à electroacústica apenas em combinação com instrumentos acústicos?
O criador vai procurando um mundo em que encontra um meio fértil à sua expressão. Interessou-me, desde muito cedo, a interacção entre os instrumentos acústicos e a electrónica. Poderia trabalhar electrónica pura, mas não tenho tempo para fazer tudo. Eu própria constato que tenho optado sempre por obras em que essa interacção instrumento-electrónica existe. Considero os dois géneros imporantes, mas trata-se mais de uma questão de identidade. Gosto bastante de lidar com o instrumetista. O trabalho de equipa com os intérpretes é um incrível mundo a desenvolver.

Como persuadiria alguém a assistir a um concerto de música electroacústica?
Qualquer obra, independentemente do meio utilizado, revela uma mensagem, um estado de alma; pode revelar um pensamento novo, um quadro emocional em que o ouvinte poderá rever-se. Na minha opinião, é sempre algo novo que é acrescentada ao mundo desse ouvinte. Não há desenvolvimento pessoal se não houver abertura interior para o novo. Por outro lado, os concertos que envolvem tecnologia musical despertam sempre alguma curiosidade, pela sua novidade. É importante que as pessoas estejam abertas a esta experiência que, certamente, as enriquecerá.

entrevista realizada em Setembro de 2015, por Diana Ferreira
(parcialmente publicada no Diário de Aveiro a 15 de Setembro de 2015)